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Os
três anos de publicação no Brasil da série Mythos – muito
suspense, terror, monstros do espaço e algumas piadas
* Por
Marcelo Tomazi Silveira
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"No
momento em que o marinheiro olhou para dentro, o animal gigantesco
tinha agarrado M. L’Espanaye pelos cabelos (...) e estava
fazendo floreios com a navalha diante de seu rosto..." Poe,
Edgar Allan. Assassinatos
na rua Morgue e outras histórias.
Tradução de: William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2002. p.
143. |
Recentemente, a revista
Dylan Dog, publicada pela Editora Mythos desde agosto de 2002, ganhou um importante prêmio de âmbito nacional, o HQ
Mix (veja matéria completa). E a categoria foi a de
"melhor revista de terror" (referente ao ano de 2004). Mas seria Dylan Dog uma revista genuinamente de terror?
Considerando somente a série ainda em curso (que já chegou ao número 34), nós podemos traçar um certo padrão de constância para os gêneros até agora abordados? Como tentativa de apreensão do complexo conteúdo das histórias do Investigador do Pesadelo, vamos fazer um passeio pelas diferentes temáticas, que brotam do terror mais cru e mortal e vão até as narrativas fantásticas e oníricas típicas do mundo dos sonhos e dos pesadelos.
Dylan Dog #1, cujo título simplesmente era
"A história de Dylan Dog", trouxe elementos do passado, até então misterioso, do personagem. Essa narrativa de Tiziano Sclavi, o
"pai" da criatura, já forneceu uma clara indicação de algo muito importante: nada é o que parece ser em Dylan Dog. Do espaço sideral e distante até o passado do tempo dos piratas, de zumbis famintos até alienígenas que são portais para outras dimensões. Há vários gêneros presentes, sendo difícil identificar um que seja
"o" mais importante. As linhas temáticas e narrativas se cruzam, eliminando fronteiras e mesclando-se. Se há muitos gêneros convivendo sob o mesmo teto, então como dar verosimilhança a um personagem que na superfície é só um detetive particular?
Dylan Dog, no entanto, não é um detetive qualquer. Desacreditado e até ridicularizado pela mídia, ex-policial da outrora
"infalível" Scotland Yard (após a fatalidade com o estudante brasileiro no metrô de
Londres em agosto/2005, a polícia considerada uma das mais competentes do mundo está sendo duramente
criticada), ele decide abrir um escritório para oferecer seus serviços como detetive particular, ao lado do fiel parceiro, um sósia (ou o verdadeiro, como ele diz) do comediante Groucho Marx.
Até esse ponto, podemos perceber marcas claras das histórias policiais, gênero
"inventado" pelo americano Edgar Allan Poe (1809-1849), cujo mais célebre conto apresentava o detetive francês C. Auguste Dupin às voltas com um brutal homicídio na típica cena do crime com as portas fechadas por dentro. Essa pequena pérola da literatura chama-se
"Assassinatos na Rua Morgue" (conforme tradução de William Lagos, mas tb. visto no Brasil como
"Crimes na Rua Morgue") e foi um marco para o desenvolvimento desse gênero no campo ficcional – apesar dos textos anteriores que também podem ser atribuídos à tríade crime-suspense-mistério.

Então Dylan Dog é uma revista de quadrinhos com histórias policiais? Fica muito difícil afirmar isso, pois muitas vezes os elementos típicos do gênero – um crime misterioso, a investigação, os suspeitos, a revelação surpreendente nas últimas páginas – acabam em segundo plano. A prova disso está nessa primeira aventura sob o selo da Mythos (o
número 100 da série
italiana): há criaturas fantásticas, mortos-vivos, alucinações e todo o tipo de elemento estranho e quase sem explicação.
Essas criaturas quase sempre percorrem as páginas das histórias, é rara um edição em que o mote seja simplesmente um crime cometido por um assassino humano qualquer – seja ele louco ou não. Assim podemos concluir que Dylan não é de fato um detetive qualquer. Após sua estada na polícia londrina, ele abre um escritório para investigar... monstros! E esse é o motivo para sua credibilidade não ser tão grande. Um detetive que caça monstros? Quem acreditaria nisso? Da fachada de história policial avançamos para um terreno sinistro, o das criaturas que a mente humana não pode conceber ou explicar.
(continua)
A temática de Dylan Dog
na Íntegra:
Parte 1 - Parte 2
Em
tempo:
Marcelo
Tomazi Silveira, curador de Dylan Dog para o Portal TEXBR, é Mestrando em Artes Visuais pela UFRGS, gerente do Expert Studio – especializado na produção de histórias em quadrinhos para o mercado americano – e professor de HQs desde 1994. Tem 32 anos e mora em Porto Alegre, RS.
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