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Os
três anos de publicação no Brasil da série Mythos – muito
suspense, terror, monstros do espaço e algumas piadas
* Por
Marcelo Tomazi Silveira
Se podemos dizer que Dylan Dog é um gibi eventualmente de histórias policiais, então podemos dizer que ele é uma narrativa de terror, dada a presença quase constante desse tipo de personagem – os monstros? Tomando como exemplo ainda esse primeiro número, há elementos típicos do gênero, como os mortos-vivos sobrenaturais, como que saídos do clássico
"A Noite dos Mortos-Vivos" (Night of the Living Dead, filme em preto e branco dirigido por George Romero em 1968 e refilmado em 1990 por Tom Saviani).
Zumbis são personagens constantes em Dylan Dog. E não só: monstros, muitos monstros, os mais assustadores que os desenhistas podem conceber. E aonde mais eles aparecem a não ser em uma narrativa de terror?. Vejamos o que os números seguintes do fumetti revelam:
Dylan Dog #2, "Cagliostro!", trouxe um infanto-zumbi assustador, uma criatura-peixe bípede, um monstro-disforme-gosmento, um gato assassino e até uma versão de
Leatherface, do clássico de Tobe Hooper "O Massacre da Serra Elétrica"
(The Texas Chain Saw Massacre, de 1974, filme sobre o assassino serial Ed Gein).
Em que outras histórias teríamos assassinos descontrolados manipulando serras movidas a motor e decepando cabeças? Esse tipo de terror – e aqui entramos nos chamados
"subgêneros" desse gênero, algo entre o thriller e o gore
– é uma constante nas narrativas do Investigador. Assim, temos uma mistura explosiva entre os gêneros policial e terror. Mas não há somente isso em Dylan Dog, não há somente o
"assassino monstro" de cada edição, apesar de uma certa constante.
Dylan Dog
#4, "Partida com a
Morte", também transita entre os subgêneros do terror, porém com uma abordagem mais
"clássica", a fábula de que devemos ou podemos decidir nosso futuro, se vivemos ou morremos, em uma partida de xadrez com a
Morte – sim, ela mesma, a senhora de face descarnada que empunha uma foice. Uma visão aqui mais
"romântica" de um gênero tão perturbador.
Em Dylan Dog
#6, "Assassino!", o inimigo da vez é um matador indestrutível que muito lembrou o robô de
"O Exterminador do Futuro" (The Terminator, dirigido por James Cameron em 1984), porém a fonte de inspiração para a criatura é a lenda judia do
golem, criatura feita de barro.
Monstros horrendos aparecem novamente em
Dylan Dog #9, "Nas
Profundezas" – que mistura elementos do filme "Psicose" com mutações
freaks que nunca deveriam ter saído debaixo da terra – e em Dylan Dog
#10, "A Ilha Misteriosa", que mostra uma terra de seres híbridos de humanos e de animais – como no clássico livro
"A Ilha do Doutor Moreau", de H. G. Wells. Esses vários subgêneros compõe um quadro bastante amplo para que possamos marcar a revista de Dylan Dog como uma
"simples" narrativa gráfica de terror. Há vários tipos de terror, assim como há vários tipos de medo.
Então devemos situar a revista entre os gêneros policial e terror? Não com tanta pressa...
Dylan Dog #15, "O Terror do
Infinito" avança sobre um outro patamar de narrativas, aquelas calcadas na ficção fantástica sobre a existência de vida em outros planetas. O personagem Whitley Davies é um homem assombrado por forças que não compreende, e traz um trauma de infância que pode revelar – ou não – uma abdução por alienígenas.
Nesse ponto a revista lembra muito a revolucionária série de TV
"Arquivo X" (a série foi um fenômeno nos anos 90, conquistando elogios do público e da crítica por alternar episódios pertencentes à narrativa maior, a
"conspiração" alienígenas, com histórias sobre monstros, assassinos seriais e outros fenômenos que não se enquadravam em uma investigação convencional do
FBI). "Arquivo X", criação de Chris Carter, tinha como gênero e mote principal uma conspiração entre humanos e alienígenas para a dominação e controle da Terra.
Abdução era uma palavra constante na série, os raptos de humanos por supostos extraterrestres e esse também é um assunto tratado pelos roteiristas de Dylan Dog. Mas não é só isso que Dylan Dog e
Arquivo X têm em comum. A série de TV, que fez sucesso por nove anos, dosava muito sabiamente as tramas sobre alienígenas, e suas intrigas e conspirações, com histórias sobre assassinos seriais, mutações, criaturas fantásticas e/ou míticas. Esses momentos, um certo descanso na linha narrativa principal, eram até chamados carinhosamente pelos fãs de
"o monstro da semana".
Esse tipo de ficção, de cunho fantástico, não marcou presença apenas uma vez em Dylan Dog: o
número 23 da revista trouxe a aventura
"Quando Caem as Estrelas", que retomou os dramas do abduzido Whitley (esse dois capítulos fazem parte de uma trilogia que se completará com o
volume 136 da série italiana,
"Lá em Cima Alguém nos Chama", ainda inédita no Brasil). São histórias que poderíamos enquadrar como narrativas de ficção-científica, ou seja, a busca de explicações racionais para fenômenos
estranhos (segundo o jornalista Marco Moretti, ficção-científica é
"todo relato em que nossos sonhos ou pesadelos (ficção) são abordados de uma maneira racional (científica)". Cf. Ficção científica ou fantasia? Wizard Brasil, São Paulo, v. 2, n. 23, p. 51, ago. 2005).
Se Dylan Dog não é uma história policial pura, por não transitar somente pelo lado investigativo e criminal – como outro fumetti Bonelli de sucesso, esse sim um representante do gênero,
Júlia (chamada no Brasil "J. Kendall, aventuras de uma criminóloga"), de
Giancarlo Berardi – e também não é uma narrativa autêntica de terror, pela falta de uma constante – algo que o fumetti
Dampyr, sobre vampiros e criaturas da noite, tem – então de que gênero ou tema estamos falando?
Pois o enigma pode facilmente ser resolvido se aceitarmos a série criada por Sclavi como um conjunto de gêneros, sendo que o único fator mais ou menos constante é a presença do sobrenatural, como algo fantástico ou extraordinário, uma anomalia à natureza ordenada.
Assim, aventuras com um elemento criminal a ser investigado podem muito bem desviar para um assassinato cometido por uma criatura de outra dimensão ou do futuro da vítima, tramas claustrofóbicas com monstros disformes e nojentos podem culminar em líricas fábulas com seres elementais... entre outras viagens.
Cada aventura de Dylan Dog tem quase cem páginas não-lineares, cujo tema, ao fim e ao cabo, pode ser a mente humana com seus monstros, demônios, anjos, ódios reprimidos, desejos por vingança, infâncias perdidas e traumatizadas ou o medo da violência terrível do nosso dia-a-dia. E também os nossos sonhos.
E não é verdade que nos sonhos tudo isso é possível? Pois todos os gêneros não são prateleiras em nossas vidas, mas peças do quebra-cabeças de que somos constituídos. Pelos caminhos dos sonhos e dos pesadelos, Dylan Dog e seu fiel e
"insuportável" parceiro Groucho transitam. Em busca de uma luz sobre a insanidade que é a vida real, um pesadelo de estar sempre acordado.
Você teve um sonho ruim? Relaxe... Quando acordar pode ser bem pior. Se for forte, resista. Se for fraco, morra. Mas se tiver um telefone por perto, ligue para o Investigador do Pesadelo. Talvez ele possa fazer algo por você...
A temática de Dylan Dog na Íntegra:
Parte 1 - Parte 2
Em
tempo:
Marcelo
Tomazi Silveira, curador de Dylan Dog para o Portal TEXBR, é Mestrando em Artes Visuais pela UFRGS, gerente do Expert Studio – especializado na produção de histórias em quadrinhos para o mercado americano – e professor de HQs desde 1994. Tem 32 anos e mora em Porto Alegre, RS.
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